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![]() 22/9/2005 - 13:23:04 Festival do Rio Nós sabemos, tem gente que odeia ler críticas de filmes antes de assisti-los. Vão por mim, tudo o que você precisa saber a respeito de "Mandrerlay", a esperada continuação de "Dogville" é que o filme foi arrasado pela crítca em Cannes e renegado até pelo próprio autor, Lars Von Trier. Sabendo disso, você estará pronto para ser surpeendido: o filme é maravilhoso. Lars Von Trier está num estado artístico em que o que faz transcende a mídia do que está fazendo. Quem duvida que os grandes filmes de Kubrick eram muito mais que filmes? O fato é que, com a decadência dos filósofos, sobrou para artistas a tarefa de pensar o seu tempo. No caso de "Dogville", gostando-se dele ou não, o fato é que se trata de um filme-evento e, dentro da arte cinematográfica, de um paradigma do meio. No caso de "Manderlay", que pensa a questão da servidão e escravidão humana com o pretexto de investigar o mundo dos escravos no Sul dos EUA, há uma iluminação artística. Como todo o artista que está passando por uma fase de iluminação, no que acredito, e penso que os méritos disso são, como dizer, místicos, ou jungeanos, e não do sujeito, Von Trier previu detalhou e descreveu tudo o que viria a acontecer com o furacão Katrina, que atingiu a exata área onde se passa o filme, e matou a mesma população negra que o protagoniza. Iluminado, seu roteiro diz tudo o que nem o Spike Lee teria coragem a dizer sobre negros. O Roteiro de "Maderlay" é tão explosivo que qualquer um que tenha sangue negro nas veias (todos os brasileiros) vai ter vontade de escondê-lo no baú da mente. Para quem já viu o filme, o roteiro de "Manderlay" é a própria "Lei da Velha Senhora". Tudo o que você precisa saber para apreciar "Manderlay" são seus aspectos decepcionantes. Aí, como eu, você passa por cima disso e vai direto ao cerne da questão. Então, prepare-se: são os mesmos cenários de "Dogville", a mesma música, a mesma narrativa em off, a mesma estruturação em capítulos, os mesmos créditos finais ao som de "Young Americans", do David Bowie. Ailás, até quem odiou "Manderlay" concorda que, dessa vez, a sequência de fotos no final é uma obra-brima, mostrando os negros americanos nas situações mais humilhantes aos negros servindo ao exército no Iraque. "Manderlay" é também sobre o desejo feminino, também sobre o fato dos Estados Unidos quererem impor à força liberdade a culturas que não querem liberdade, fala sobre povos que só funcionam como escravos, fala sobre a raíz da cultura negra. E acima de tudo, Von Trier cortou do filme a cena, aquela famosa cena, famosa no mundo todo antes mesmo das filmagens terem acabado, em que um jumento é sacrificado em cena aberta pelos atores. Ela não seria gratuita, dá pra ver quando vemos o filme. Mas tiraria o foco do que é dito no filme, por isso, foi uma decisão sábia. Bryce Dallas Howard, a cega de "A Vila" substitui Nicole Kidman. Se esforça, mas não dá conta do recado. E os enquadramentos são sofríveis, provavelmente porque Lars Trier já estivesse de bode com a tarefa de fazer tudo o que já tinha feito em "Dogville", mas se você não entende tanto de enquadramento nem vai dar bola. E a contundência de "Manderlay" supera isso tudo. E isso tudo pra dizer: Começou o Festival de Cinema do Rio. Cada ano mais importante, tanto para o mercado de filmes nacionais, que trocaram Gramado e Brasília pelas estréias no maravilhoso cinema Odeon, na cinelândia. Quanto para os filmes internacionais: a constelação de estrelas que vem para o evento vai de Spike Lee a Gus Van Sant. As filas para comprar ingressos já dobram o quarteirão. O "o que você vai ver?" já domina todas as rodas de conversa da cidade. Nós sempre aproveitamos as sessões que, antes do Festival começar, destinam a imprensa. E, como fazemos desde 2000, vamos deixar uma lista do quê, quando, onde e porque. Vamos lá porque o texto já está ficando enorme e o que tem de gente me cobrando não está no mapa. "Querida Wendy" - Thomas Vintberg - Essa união inédita entre dois dos nomes mais importantes do "Dogma 95", Lars Von Trier no roteiro e Vintberg na direção dá um ótimo caldo. É fato que este filme pertence a Von Trier, que ambienta a história numa legítima "Dogville". Não fosse a opção do diretor por utilizar cenários "reais" ao invés da cenografia simbólica que celebrizou "Dogville", o que é, no fim das contas, uma pena, o filme seria uma continuação do filme estrelado pela Nicole Kidman. Mais identificada com o filme do que "Mandelay", inclusive. Um grupo de jovens loosers pacifistas cria uma absurda seita secreta de adoração de armas e tudo relacionado a elas. Destaque absoluto para a trilha sonora. E o final que faz uma paródia fantástica a "The Wild Bunch", obra-prima do mestre Peckimpah. "Last Days" - Gus Van Sant - Imaginem um "Elefante", filme anterior do americano, que ganhou de "Dogville" a palma de ouro em Cannes no ano passado, feito desta vez sobre os últimos dias de Kurt Cobain? Dá pra perder? De jeito algum. Se esse tipo de cinema etéreo que Van Sant inventou para "Elefante" vai combinar com a navalha na carne do estilo grunge? Aposto que sim. O próprio diretor vem ao Rio explicar o filme antes de sua sessão principal, no Odeon, claro. "Flores Partidas" - Jim Jarmush - Vocês lembram que desci a lenha no filme "Encontros e Desencontros", da Sofia Coppola, dizendo que ela estava tentando imitar Jim Jarmush sem dar crédito? Pois então, chegou a vez de Jarmush trabalhar com o ator Bill Murray, mais cult do que nunca. Eu acho que esse filme mira o Oscar. O Oscar que Jarmush nunca ganhou. O Oscar que Murray perdeu em 2003. Não acho isso bom. Mas como Jarmush é o que há no que a gente chama de "cinema independente cool" e não filma a quase 10 anos (apesar de sua coletânea de curtas "Sobre Café e Cigarros" ter sido o melhor filme do festival passado) a gente não vai perder. "Eros"-Micelangelo Antonioni e outros - Um inédito do mestre Antonioni, que não filma há 30 anos, desde que um derrame comprometeu sua fala. Steven Sodembreg deu uma mãozinha pra fazer esse milagre acontecer. E não é preciso dizer mais nada, claro. "Lady Vingança" e "Senhor Vingança" - Park Chan-Wook - Sim, o diretor coreano de "Oldboy" é o cara da moda. Seu cinema, espécie de Nelson Rodrigues mais punk ainda, para estômagos fortes é o hype do momento. Tratam-se dos dois filmes que completam a "triologia da vingança", cujo "Olboy" faz parte. Vai lotar as sessões de meia-noite. "Irmãos Grimm - Terry Gilliam" - O primeiro filme de Terry Gilliam (de "Os Doze Macacos" e "Brazil-o filme") em 9 anos é sobre os autores de "Chapeuzinho Vermelho", "Branca de Neve", "Cinderela", todos contos infantis de 1860 que, originalmente, são muito violentos e um tanto aterrorizantes, porque foi Disney que no século passado dourou a pílula. "Caché"-Michael Haneke - Mais um filme do professor de filosofia Haneke, que me deixou pê da vida com seu gratuitamente ultraviolento "Funny Games" que pra mim, era picaretagem pura. Mas esse "Cachê" foi o filme mais comentado do último festival de Cannes. Pra falar a verdade, era dada certa a Palma de Ouro a ele até que em cima da hora resolveram premiar um filme francês, o L‘Enfant, que está também no festival e você não vai perder. Don‘t come Knocking-Wim Wenders - O Celebrado reencontro do mestre Wim Wenders (e aprendenders) com seu melhor cinema é o reencontro com seu melhor roteirista - o ótimo dramaturgo americano Sam Sheppard. De volta a mesma paisagem americana que nos anos 80 consagrou "Paris Texas", outro exemplo de cinema-paradigma que quis dizer que "Dogville" havia se tornado. Uma das grandes notícias do ano em cultura. Free Zone-Amos Gitai - O piteuzinho Natalie Portman, a princesa de "Guerra nas Estrelas", a musa de "Closer", nasceu em Israel, sabia? Mais: é, na vida real, uma super ativista política. Vai a Israel com frequência, frequenta Kibutz, o escambau. Finalmente encontrou espaço em sua agenda hollywoodiana para filmar com o mais famoso cineasta engajado de Israel. Oliver Twist-Roman Polanski-É o novo filme do Polanski, e nada mais tem sido dito dele. Uma aposta: não deve ser bom. Polanski tem um hábito esquisito de, logo depois de fazer uma obra-brima, e seu último foi "O Pianista", cai de produção e só dez anos depois volta a filmar bem. Mas a gente vai lá conferir. Depois a gente conta. Todas as Crianças Invisíveis-Imagine um projeto que reúne curtas de gente tão díspar como Kátia Lund, Ridley Scott, Spike Lee e John Wooo! O tema é comum, crianças carentes. Tudo bem, corre-se o risco de ser aquele filme-unicef politicamente correto de sempre, mas, sinceramente, duvido que Spike Lee, que vem ao Rio representando a obra, vai deixar. E, convenhamos, não dá pra perder o curta do alucinado John Woo sobre crianças carentes, né? Guardiões Da Noite - Filme Russo de Terror. Indicado por Quentin Tarantino e Danny Boyle como o "Senhor dos Anéis Russo". Uma mistura disso tudo com mitologia russa, o filme Higlander, o seriado Buffy-Caça Vampiros, muito dinheiro na produção e efeitos especiais e todo mundo falando russo! Não entendi nada do filme, mas adorei, foi um dos que mais me divertiu nas cabines de imprensa. Os Reis de Dogtown - Vocês lembram do documentário "Dogtown e Z-Boys", que conta como, quando, onde e porque inventaram o Skate, na Califórnia dos anos 70, e que encantou a todos pelo seu charme, pela sua alma beatnik até? Pois então, Stacy Peralta, que com Tony Alva e o grande marginal radical Jay Adams fazer a tríade divina do esporte. É um filme de verão. A direção de arte é maravilhosa. Dá a maior vontade de ser skatista, ou de, no mínimo, desafrouxar a gravata e aproveitar a vida melhor. É o clima de Venice, provavelmente o lugar mais adorável do mundo que ja conheci. Bairro encrustado na horrenda Los Angeles, pedaço de beira de praia que hipnotiza as pessoas (Morrissey deixou Londres para morar lá. A turma do Radiohead também construiu lá seu estúdio). Não dá pra resistir nada que faça menção a Venice, cujo apelido é, você já deve ter adivinhado, "Dogtown". E antes que você fale: Cheeega! eu "Chego". Escrevo mais, dou mais dicas, que você é quem vai dizer se são furadas ou não, e declaro aberto o debate aqui nos comentários logo abaixo. Vamos lá? Por Dodô (@) Envia por email « anterior | próximo » |