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![]() 25/11/2005 - 13:57:35 Cadê os fãs de "Dogville"? "Manderley" não é a Insetizan mas é muito melhor Cheio de má-vontade fui assistir a segunda parte da trilogia do Lars VonTrier iniciada pelo niilista-fascista "Dogville". Gente! Será que eu sou do contra? O famoso "espírito de porco", ainda que involuntário? Porque este filme mal está aguentando a segunda semana em cartaz, lançada numa sala média do Espaço Unibanco, já saiu para sessões alternadas com outros filmes em salas de "final de carreira"... Aonde estão os inúmeros fãs de Dogville??? A crítica que incensou "Dogville" está dizendo que este filme é bom ou "muito bom" sem entusiasmo, com subtexto de complacência, idéia de "filme menor" de um grande diretor (?). O VonTrier é camaleônico quando quer (e consegue) - e esperto. Burro, ele não é. Deve ter lido minhas críticas à "Dogville" (hahahaha, estarei eu com um "megaloma" no lobo frontal cerebral esquerdo? segundo as neurociências de Santa Rita do Passa-4, Megalomas são tumores que causam paranóias de grandeza, todos sabemos... hehehehe). Falando sério: o filme é MUITO MUITO BOM, mantendo o niilismo sobre a espécie humana e nossas (des)organizações culturais(?) "civilizadas", no atacado e no varejo. Mas não repete o grandiloquente final assassino da Grace de Dogville, revelada como filhota protegida de gângster poderoso dando a sua "virada" (aparente) de masoca para sádica, dona do poder, das armas, com direito da força de julgar os vivos e os mortos como um deus onipotente... final que eu soube que era aplaudido (não o filme que era aplaudido, a cena mesmo em que ela mata todos os habitantes de Dogville com o próprio dedinho no gatilho das metralhadoras do papapizão), ou seja, a manipulação da platéia numa espécie de filme do Charles Bronson (Desejo de Matar 1,2,3,...n) com ares de fábula intelectualóide. O mais curioso é que os críticos estão mencionando que "a novidade" da narrativa em uma espécie de enorme "palco" sem paredes nem portas para as casas, apenas desenhadas em seus perímetros no chão, já não atrái tanto!... Devo ser um E.T.! A "novidade" era um recurso teatral brechtiano e a fábula um recurso idem do Dürenmatt. Aliás, apelidei "Dogville" de ‘A Visita da Jovem Senhora‘ no lugar da ‘velha senhora‘ da peça de Durenmatt. Novidades? Acho que faz bem a "Manderlay" o recurso formal dessa narrativa ser menos explorado: está lá, mas sem ênfase, servindo ao enredo e nunca como exibicionismo do tipo "Mamãe, sem as mãos! e sem cenário!" Como a troca dos atores sobreviventes (sai Nicole Kidman, entra aceguinha de "A Vila", outro em que fui espinafrado por espinafrá-lo; sai James Caan, entra Willem Dafoe como o pai-gângster/deus ex-machina); o filme se abre com um narrador (John Hurt) informando que, tão logo deixaram Dogville para trás, Grace e seu pai retomaram as divergências anteriores; ou seja, Grace volta a querer se opor ao gangsterismo do papai e quer ser nova santa ou fazedora do bem, acreditando na bondade humana. Esta "retomada" da premissa anterior é bem absurda, se esperamos uma coerência psico-naturalista da personagem, mas serve bem a um "novo" filme, trazendo a mesma base para discutir outro desenvolvimento das mesmas premissas, ainda que a evolução seja semelhante, vale dizer, a decepção com o gênero humano. Esta "retomada" da "psicologia" prévia de Grace também pode ser sugestiva da irresponsabilidade camaleônica de Von Trier que não tem muito compromisso com o que diz ou -será ? - reviu sua mão pesada que acabou com uma idéia mais fascista do que niilista em "Dogville". Em "Manderlay" descobre-se o fascismo interno como potencial - ou internalizado por cada um a partir da experiência com a realidade externa adversa e excludente. A provocação é boa: nos EEUU de 1933 uma fazenda ainda tem escravos negros. Talvez Trier achasse que culpar os escravos por sua escravidão fosse trazer polêmica política e protestos escandalosos a favor do filme. Mas já somos sartreanos suficientemente para pesquisarmos e sabermos de nossa falta de liberdade interna, não raro maior do que os grilhões concretos que possam nos aprisionar. Com isto, o filme ganha uma relevância, aos meus olhos, muito maior do que o fascismo dogvilliano. O filme é um pouco menor e bem menos chato (porque, cá entre nós, Doogville era repetitivo e arrastado no "calvário" de Grace-1) com uma Grace-2 com ar mais ingênuo do que Nicole Kidman, por vezes; ela "engana" menos, com boa mistura de perplexidade e atordoamento, assim como com uma certa curiosidade pela malícia que ficam bem expressas no olhar da jovem Bryce Dallas-Howard - que nome!). Desta vez, se o filme não reassegura saídas para os agrupamentos humanos, também não se mostra tolerante com a lei do mais forte que detenha o poder das armas depois de vincular emocionalmente o espectador aos sacrifícios da bela e"bondosa" Grace-1; mais sabiamente, retrata, como num bom Durrenmatt (me lembrei de outra peça dele, "Os Físicos"), o impasse, a frustração de um projeto mais, digamos, iluminista que a Grace-2 tenta retomar, (e que, de antemão, só impõe novamente pelas armas) abalado pela alteridade divergente de seus ideais e pela própria atração instintiva, desta vez não pela destrutividade, mas pelo erotismo. Pretendo ver de novo. Recomendo, dou a cara a tapa! Desde "Ondas do Destino" não vejo um filme tão bom do Von Trier, o esperto que muitas vezes direciona sua inteligência e habilidade de manipulação em projetos de escândalo cheios de som e de fúria significando nada ou mais ainda, más-intenções. Pode ser que, desta vez, o manipulado tenha sido eu. Corro o risco. E espero ansiosamente o desfecho da trilogia, "Wásington" (parece que é asim mesmo que o filme vai se chamar, não é Washington, mas Wásington). Tem fotos no final e música de David Bowie de novo. Que fotos!!! Por Luiz Fernando Gallego (@) Envia por email « anterior | próximo » |