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![]() 19/12/2005 - 02:07:16 Ninguém mais me liga de madrugada <i>Take me down little Susie Take me down I know you think you’re the Queen of the underground And you can send me dead flowers every morning Send me dead flowers by the mail Send me dead flowers to my wedding And i won’t forget to put roses on your grave</i> E foi numa Quarta feira que ela parou de mandar flores mortas. Todos os dias, desde aquela noite, que ela deixava um ramo de flores mortas na porta de meu apartamento. Eu nunca descobri como ela fazia, como podia se esgueirar feito um gato pelos corredores sem ser vista. Mas também não me importei muito em descobrir. É fato que a descoberta das coisas como elas são na realidade faz com que percam sua magia. Assim como quando eu descobri quem era ela. Dezessete anos, eu gritava. No meio do quarto. Mão na cabeça. Rodando. Tudo mais ao meu redor rodava, um redemoinho de pensamentos com lampejos de um terror incompreensível. E ela ria. Sua risada rodava, som e imagem. Deitava e rolava na cama, rindo. Blusa branca, saia preta, meias até a metade da perna e tênis, aparentando a adolescente que era. E eu gritava. Dezessete anos! Rodava. Aquela mulher que se aproximou de mim sob a luz vermelha, com o que parecia uma pinta sobre o lábio, no lado direito do rosto, parecia muito certa do que queria. Me ofereceu um gole de sua bebida, algo com Vodka dentro de uma garrafa, algo não muito forte, um pouco doce até. Me encarava e sorria com um pouco de escárnio, me desafiando. E eu sabia o que ela queria. Bebi no gargalo sem tirar os olhos dela. Devolvi a garrafa, ela pegou como se quisesse também levar consigo meus dedos, coloquei minha outra mão em sua cintura e a puxei para mim. Sua mão no meu peito me impediu. Tomou o último gole da bebida, atirou-a no lixo, e a mão que impedia, agora acariciava. Desafiou-me de novo, colocando a língua para fora. Eu continuava com sede. Puxei-a para mais perto, sentindo nela ainda o gosto doce daquele último gole. Ela ria e me olhava divertida. Qual é o problema disso, me perguntava. Não foi a primeira vez e nem você foi o primeiro. Só sei que foi diferente, e por isso estou aqui. Só achei que você devia saber. E imaginava as grades de uma cadeia se fechando, uma cela cheia de homens carrancudos me olhando como se a diversão finalmente houvesse chegado. Sabe o que eles fazem com quem abusa de crianças na cadeia? Uma voz repetia incessantemente. Sabe!???? Rindo e rindo, me dizia que não era mais criança e que sabia que eu a amava e que a queria de novo. Dizia com tanta certeza que me fez acreditar. Me disse com tanta certeza que me fez deitar ao seu lado. Com tanta certeza que me fez abraça-la e beija-la. Tanta certeza de tirar sua roupa com um misto de calma e agonia. Certeza de que eu queria tê-la naquela tarde novamente como a mulher que havia dentro da menina. Ao redor garrafas de cervejas, roupas espalhadas e o travesseiro jogado no chão, junto com um sapato que não era meu. Ao meu lado seu corpo meio coberto pelo edredon, meio nu. A pele branca e lisa como uma tela, o leve movimento de sua respiração, olhos fechados, os lábios levemente tortos para baixo. Não parecia mais a forte mulher que havia me feito perder a cabeça na noite anterior. Notei a saia xadrez, meio grunge pendurada na cadeira em frente ao computador. Tirei seus finos e compridos cabelos pretos dos olhos borrados de preto. Foi quando eles se abriram e os vi pela primeira vez. Ou pelo menos, pela primeira vez em que poderia lembrar de tê-los visto. Levantou-se assustada, sentou-se tentando despertar, coçando os olhos. Deixando a mostra dois pequenos seios, lindos, aveludados, quase sem auréolas, quase sem... os cobriu com o edredon enquanto sorria ao me ver admirando-os. No dia seguinte acordei e ela não estava mais lá. Talvez ainda tonto pelo sono jurei ter ouvido a porta se fechando e saí de cueca no corredor, pensando que a alcançaria, mas ao invés disso pisando em algo seco que fora colocado na porta do apartamento. Vi as flores mortas enroladas num pedaço de papel, que seria branco não fosse o sangue que saia do meu pé por culpa de um espinho. Sentei-me em frente ao computador e comecei a escrever, tentando transformar em palavras todos aqueles sentimentos. Tentando entender quem era aquela garota. Foi quando comecei a escrever nossa história. Susie, ela me disse. E eu sou a rainha do underground. E sorriu. Sorria muito pois tinha um lindo sorriso, e sabia disso. Assim como sabia o quanto era bonita e inteligente. Se não fosse, jamais me enganaria. Levantou-se nua e deixou que eu a olhasse. Procurou cada peça de roupa e vestiu demoradamente, como um strip-tease ao contrário. Sabia o quanto isso também podia ser excitante. Vestiu por fim suas botas de plataforma e cano alto. Viu as horas no celular e o sorriso sumiu do seu rosto. Confirmou a hora e pareceu preocupada. Apertou uma tecla e esperou que alguém atendesse. Onde você está? Eu perdi a hora. Ah é? Show! Então vou praí. Se alguém ligar, principamente minha mãe, diz que to no banho, inventa alguma coisa, sei lá, tchau. Tenho que ir. Me derrubou na cama com um beijo e saiu porta afora. Naquela madrugada o telefone tocou. Atendi sonolento e reconheci sua voz dizendo que estava apaixonada e que eu era um escroto por ter feito isso com ela. Eu não soube o que dizer, a não ser que eu também estava. Durante as tardes ela vinha até meu apartamento e conversávamos sobre tudo. As vezes ela pegava um livro da estante e lia durante a tarde toda enquanto eu escrevia. Dizia que o barulho do teclado a acalmava. Lia até cair no sono. As vezes transávamos a tarde toda e não trocávamos uma única palavra. No meio da madrugada ela me ligava e falava baixo para não acordar o resto da sua casa. Me falava de seus pais, de seu irmão, de sua vida, da vida que queria para si e do quanto achava que o tempo passava devagar quando se é tão jovem e não se tem a menor idéia do que virá por diante. Falava e falava enquanto eu ouvia, até que estivesse prestes a amanhecer, então desligava, e eu dormia o melhor sono da minha vida. E toda manhã eu encontrava as flores mortas. Uma hora aquilo ia acabar. Eu sabia disso. Eram 8 anos de diferença que pesavam sobre minha cabeça e meus ombros. Quanto mais a queria perto de mim, mais sabia que ela se afastaria e que toda aquela paixão morreria, como as flores que ela me mandava todos os dias. Confesso que tive medo, principalmente no começo. Medo do quê. Não sei. Mas tinha. E ela passou a levar os livros para terminar em casa, passávamos mais tempo lendo e trepando e toda a noite conversávamos até o sol raiar. E o medo foi passando. Ela fazia com que eu me sentisse bem, sentisse seguro. Quem diria, logo ela, uma menina que nada sabia de nada. Que nada sabia de mim. Talvez fosse aquela doce inocência de quem ainda não sabe o quanto a vida pode ser dura. Nunca descobri onde ela morava e ela nunca quis me dizer. Dizia apenas que era melhor que eu não soubesse. Numa madrugada o telefone tocou e não foi sua voz que disse alô. Foi uma voz de mulher. Perguntou meu nome e de onde eu falava. Respondi metade da primeira e questionei o porquê da segunda pergunta. Desligou. E naquele dia Suzie não ligou. Apareceu chorando na tarde seguinte, com o rosto vermelho, e pediu para que eu a abraçasse. Chorava enquanto minhas mãos acariciavam seus cabelos pretos macios. Dormiu soluçando como um bebê cansado de tanto chorar, eu a abracei e passamos a tarde assim. Notei que seu celular estava desligado e achei melhor não perguntar nada. Não queria embora naquela noite. Eu pedi que ficasse, mas como se enfrentasse um destino cruel e inadiável, se foi. Eu a olhava nua, deitada ao meu lado e sentia uma estranha paz. Despudoradamente linda em seu sono despreocupado, ressonando calmamente e as vezes tremendo, como se uma libélula rapidamente tocasse na plácida superfície de seus sonhos. Nem em meus dias mais estranhos me imaginei vivendo uma situação dessas. Eu a olhava e imaginava se aquela garota não era alguma espécie de anjo enviada por alguma espécie de Deus para me salvar. Um anjo caído. A rainha do underground. Me ligou mais cedo do que o normal e me pediu, quase sussurrando, que contasse minha história. Disse que era melhor ficar quieta, e que era minha vez de falar. Contei-lhe tudo sobre minha infância difícil, as surras de meu pai, as bebedeiras de minha mãe. Falei sobre o acidente que matou minha irmã e como isso me fez, aos 16 anos, sair de casa. Descrevi os lugares por onde passei, a forma que encontrei para viajar de graça de um lugar a outro. Falei do exército e da prisão, um ano em um e três meses em outro. Falei de como era importante para mim escrever e deixar cada traço do meu passado registado em algum lugar. Ouvi-a chorando quando lhe contei como descobri sobre a morte de meu pai e encontrei minha mãe louca num hospício cinco anos depois que saí de casa, e como desde então passei a dar importância a eles. Tarde demais claro. Confessei como isso fez com que eu me acalmasse e mudasse de vida, passando a viver exclusivamente do que eu escrevia. Quando já não havia mais nada para dizer, nem a voz para tal, ouvi uma gritaria do outro lado do fone e a linha caiu. Desesperadamente tentei ligar para seu celular, que parecia estar desligado. Não tinha o telefone da sua casa. Passei o resto da noite acordado esperando que ela ligasse. Nada. Uma semana se passou. Esperei o pior. E esperei algo pior ainda, que ela houvesse, finalmente, me esquecido. Horas intermináveis esperando uma notícia. Caminhei pelas ruas buscando seu rosto. Por várias noites voltei ao lugar onde nos conhecemos, esperando encontrá-la. Deixei centenas de mensagens. Nada. Nenhuma mensagem na secretária eletrônica, carta, bilhete, sinal de vida. A única coisa que me dava alguma esperança eram as flores mortas, que todos os dias apareciam na minha porta, sem que ninguém visse quem as depositava lá. Na terça a noite ela finalmente apareceu na minha porta. Diferente. Carregando uma mochila, profundas olheiras e uma fisionomia que não mais lhe dava a vivacidade de uma garota de dezessete anos. Ela está partindo, pensei. Sorriu melancólica e me abraçou. Seus lábios procuraram o meu. Não disse nada, apenas me levou para dentro e trancou a porta. Foi nossa última noite. Não a vi indo embora, nem a hora em que isso aconteceu. Na quarta-feira de manhã encontrei as últimas flores mortas. Junto, um bilhete de despedida, me agradecendo por ter salvado sua vida. Não havia o que fazer, era algo que não havia como impedir. Susie tinha que ir, era o seu momento, era a sua vez. O corredor, a porta branca manchada de preto, os cento e doze degrais, o tapete velho e marrom da recepção, a porta verde, a calçada quebrada a rua e o longo caminho até o horizonte. Talvez um dia voltasse, mas quando se faz uma escolha como a que a aquela menina, agora mulher, fizera, raramente se consegue voltar para o que era antes. Guardei o bilhete e as flores fechei a porta, senti sede e passei a língua pelos lábios sentindo o doce gosto daquele último beijo. Por Paulo F. (@) Envia por email « anterior | próximo » |